Ser filho de Deus, mesmo com nossas impurezas

Jesus toca o leproso e o salva por inteiro, Jesus pode também no tocar!

Homilia do Padre Marcelo Aravena dia 14 de fevereiro de 2021:

 

"Um leproso veio a Jesus". Marcos 1, 40 - 45

Queridos irmãos, queridas irmãs do santuário da Mãe Rainha,

O primeiro que eu quero falar antes de entrar na reflexão de hoje é que sinto uma intensa alegria e gratidão de ter o Deus que temos. Ele é um Deus de compaixão e misericórdia. As leituras de hoje estão cheias disso, mas também de esperança e vida para nos. Nós temos que apreender de Jesus e atuar e amar como ele fez.

Já sabemos que no tempo de Jesus (e antes) ser um leproso significava ser um pária, alguém que não tinha direitos e não podia estar onde o povo estava; eles deveriam ser mantidos fora das cidades, e claro, fora da "cidade" (Jerusalém com seu Santo Templo).

Um "proscrito", como dizia o Papa Francisco. Faltava-lhes qualquer contato humano: sem carícias, sem abraços, sem gestos de afeto ou de proximidade? Certamente agora que mal podemos nos tocar, ou nos abraçar, ou nos beijar... nós os entendemos muito melhor.

Especialmente tantas pessoas mais velhas trancadas em casa, a maioria delas sem acesso a novas tecnologias. Mas também muitos jovens, para os quais o contato social e pessoal é tão necessário. Este vírus nos isolou, nos fechou, nos fez ter medo dos outros... que se tornam uma ameaça, mesmo aqueles que estão mais próximos e queridos de nós.

Esses leprosos não receberam ajuda, além de algumas esmolas, para superar sua desgraça: uma imensa solidão. Eles tinham que alertar sobre sua presença, gritando ou tocando uma campainha, para que todos se afastassem deles e pudessem estar "seguros". Eles não eram mais tratados como "pessoas".

Eles também foram banidos de seu relacionamento com Deus, foram "deixados fora de sua mão", pois esta doença de pele (muitas infecções que não eram realmente lepra eram chamadas de "lepra") era considerada um sinal de corrupção interior, de pecado, um castigo divino.

E é assim que este leproso que ousa se aproximar de Jesus se sente: sujo, necessitado de purificação. A religião não queria ter nada a ver com eles, mantinha-os fora disso. Isto é o que a Sinagoga ensinou, a lei de Deus. Não era mais apenas uma questão de "cuidado" ou prevenção de riscos à saúde. Foi uma condenação de pleno direito.

Não acontece algo semelhante hoje também quando as vítimas de alguns infortúnios se sentem culpadas, ou quando são "justificadas" por estarem nessa situação: "ele é um bêbado, ou preguiçoso", ele teve práticas sexuais proibidas... e  contraiu AIDS.... Em outras palavras, eles são os culpados por sua situação. A Igreja e alguns voluntários são os únicos que se apresentaram, levantaram suas vozes, ajudaram o máximo que puderam. Graças a Deus.

Algumas vítimas de abusos descreveram como foram feitas para se sentirem envergonhadas e culpadas por seus agressores, e assim por diante.

Não é tão incomum hoje que, em nível pessoal, social e até religioso, nos afastamos de certos indivíduos, pessoas e filhos de Deus, porque são desconfortáveis, porque não estão "em ordem" com a lei de Deus (ou da Igreja), porque é arriscado ter contato com eles, porque são sujos, porque podem nos colocar em apuros, por causa de sua condição sexual ou de sua cor/ nacionalidade, porque este é um assunto para outros, porque etc...

É tão doloroso e surpreendente saber que há casos de trabalhadores da saúde e de cuidadores que receberam ameaças, insultos, danos materiais, convites para "ir a outro lugar" e desprezo... porque estão trabalhando em hospitais e centros de saúde. Eles arriscam suas vidas por nós... e alguns os tratam como leprosos!

Se nos reconhecemos como pessoas de fé ativa, estamos mostrando com este tipo de ações e atitudes em que Deus realmente acreditamos: um Deus que exclui, que marginaliza, que condena, que os abandona ao seu destino, que não merece seu amor? E, é claro, nós também não.

No entanto, este leproso não suportava continuar assim e, sozinho, não tinha nada a fazer. Mas ele sente que Jesus pode fazer algo por ele? Então ele pula todas as normas religiosas (a Lei) e sociais para vir até ele e pedir sua ajuda! Não só isso, mas ele compromete Jesus: para quem entra em contato com um leproso (além do fato de que ele pode ser infectado), também é "impuro". "Jesus não podia mais entrar abertamente em qualquer aldeia; ele ficava do lado de fora, em lugares solitários"... como o leproso havia feito antes,

Jesus, entretanto, não se irrita, nem o repreende, nem se afasta dele. E a primeira coisa que ele faz é estender a mão e "tocá-lo". Ele começa pelo restabelecimento do contato humano. Primeiro físico, depois verbal. "Eu quero".

Mas quero que você não perceba Deus como alguém que o exclui ou o deixa em paz.

Quero que você saiba que o Reino também é para você.

 

 Quero que você se veja como tendo o direito de fazer parte da comunidade humana, com sua doença e seu pecado.

Quero que os sacerdotes saibam que o plano e a vontade de Deus é curar, acolher, incorporar, incluir.

Quero que a Lei de Deus  deixe de ser usada como um instrumento de marginalização.

Quero, ao tocar você e falar com você, que você se reconheça como pessoa, e seja curado por dentro e por fora.

Eu quero tocá-lo... mesmo que isso signifique que estou "tocado", excluído, manchado, "impuro" e não posso mais entrar abertamente em nenhuma cidade...

Aproximar-se daqueles que são maus, daqueles que passam um mau bocado, daqueles que não se valorizam, daqueles que são "corruptos" dentro ou fora, mesmo correndo o risco de nosso prestígio, nossa saúde, nossas vantagens... serem "tocados"... é a tarefa dos discípulos de Jesus, de toda a Igreja. Ir para aqueles que não têm papéis, para aqueles que são despejados, para os desempregados de longa duração, para aqueles que não têm preparação para conseguir um emprego, ou não têm saúde, ou não vivem de acordo com a moral cristã, ou não têm "papéis", ou isso ou aquilo...

Marcos diz que Jesus sentiu "compaixão", ou seja, que sua situação dolorosa o afetou, o tocou por dentro.

Queridos amigos e amigas do santuário Sião, vamos juntos assumir O DESAFIO DE ESTENDER A MÃO E TOCAR. Vamos amar como Jesus amou. Vamos amar como Maria, Mãe amou. Vamos cuidar uns dos outros para juntos anunciar que o Reino de Deus Pai está aqui, presente.

Pe. Marcelo A. Schoenstatt

Fonte de inspiração:

Homily Fr Andrew Pastore, Manchester, UK ciudadredonda.org

Amex Assessoria
Doe agora