No dia 22 de junho de 2025 a santa missa foi celebrada no santuário Sião Jaraguá pelo Pe Antonio Bracht, em sua homilia ele provocou uma reflexão pessoal sobre “Quem é Cristo para mim?” e a cruz que Jesus nos pede para “pegar” e segui-lo é o olhar dele para todos nós e nos convida a olhar para Ele. Assim o fez:
“Todos nós usamos títulos para nos referirmos a algumas pessoas. Chamamos o médico de “médico”, o professor de “professor”, o deputado de “deputado”, o motorista de “motorista”. Quando usamos um título, estamos nos aproximando da pessoa por meio da função ou da missão que ela representa.
Quando você vai ao médico, geralmente não conhece toda a biografia dele. Você não sabe onde ele nasceu ou qual faculdade frequentou. Mas sabe que ele é médico, e isso basta. Ele entende de saúde e vai te ajudar a se curar. O mesmo vale para o professor: você pode não conhecer sua história pessoal, mas sabe que ele vai ensinar matemática, geografia, história ao seu filho. O título permite esse vínculo inicial, uma forma de conhecer um pouco da pessoa sem conhecê-la profundamente.
Há um título muito especial que acabamos de conceder a uma pessoa que estamos ajudando a ser canonizada: o senhor João Pozzobon. Por decreto do Papa, ele agora é considerado “Venerável”. Muita gente não conhece a biografia completa do João Pozzobon, mas esse título já nos aproxima dele de alguma forma, cria um relacionamento.
No Evangelho de hoje, (Lc 9,18-24), vemos também títulos sendo dados a Jesus. É o próprio Jesus quem provoca a pergunta: “Quem dizem que eu sou?” Alguns dizem que ele é um profeta, outros que é Elias que ressuscitou. Estão dando títulos a ele. Mas Pedro, com inspiração divina, responde: “Tu és o Cristo de Deus”. Esse é um título profundo, que nos aproxima de Jesus como o Ungido, o Enviado do Pai.
No entanto, os títulos têm um outro lado. Eles não só nos aproximam, mas também correm o risco de limitar. Quando classificamos alguém — “motorista”, “professor”, “padre” — corremos o risco de reduzir essa pessoa à função. Com Jesus, isso não pode acontecer. O título que damos a ele não pode colocá-lo dentro de um esquema humano. Jesus é mais do que qualquer definição. Ele ultrapassa os limites dos nossos esquemas religiosos ou pessoais. Deus enviou seu Filho para entrar na nossa vida, e Ele está sempre presente, independentemente do que pensamos ou esperamos dele.
Por isso, de vez em quando, é bom nos confrontarmos com essa pergunta: Quem é Jesus Cristo para mim, hoje? Às vezes, é a própria vida que nos faz essa pergunta. Um acontecimento, uma dor, uma crise, e a gente se pergunta: “Por que eu? Quem é Deus? Por que Ele permitiu isso?” É nesses momentos que Jesus nos oferece uma dica preciosa: “Quer me conhecer? Pegue a sua cruz e siga-me.”
A cruz, para muitos, significa sofrimento. E, claro, ninguém deseja sofrer. Quem de nós quer carregar uma cruz? Mas quando Jesus diz “pegue sua cruz e siga-me”, ele não está falando apenas do sofrimento. Ele está falando de uma escolha, de um caminho.
Pe Gabriel Oberle fez o mosaico da cruz que está no altar do santuário, inspirada na Cruz da Unidade, e uma vez ele levou a foto para mostrar ao autor da cruz original. Ele olhou e disse: “O principal dessa cruz você fez certinho: o olhar de Cristo e Maria.” Eles estão em contato, se olhando. E nesse olhar, Maria compreende sua missão: acolher o sangue de Cristo e entregá-lo aos homens. Ela faz o papel do sacerdote, que recolhe o sangue da salvação.
Quando Jesus fala “pegue sua cruz”, Ele está dizendo: “Deixe que eu olhe para você.” E o olhar de Deus ilumina mais do que o sol. É um olhar que penetra a alma. Quando Deus olha para mim, eu estou bem olhado. Às vezes, falamos de “mau-olhado”, mas esse é o olhar bom, o olhar certo, que vê em mim o que posso ser, o que posso realizar. Esse olhar nos revela quem somos e quem é Jesus.
Por isso, a cruz não é para gerar sofrimento por si só, mas para nos aproximar de Jesus, para que possamos compreendê-lo melhor. E, consequentemente, compreender quem somos para Ele. Jesus quer contar com cada um de nós.
Assim, podemos usar os títulos com propriedade: “Cristo de Deus”, “Ungido do Senhor”, “Filho único do Pai”. Ele nos dá algo que só Deus pode dar: salvação, vida nova. Sem isso, nada do que decidimos na vida é realmente decisivo. Só a decisão de Jesus por nós, ao entregar a própria vida na cruz, é que dá sentido a tudo o mais.
Por isso, meus irmãos, queremos ouvir esse Evangelho com profundidade. Quem é Cristo para você hoje? Quem é Cristo para mim hoje? Não olhe apenas os títulos. Olhe para Ele. Deixe que Ele olhe para você.
Quando fazemos uma adoração, uma exposição do Santíssimo, o que fazemos? Colocamos Jesus diante de nós. E o que Ele faz? Olha para nós. Esse olhar revitaliza. É como no amor entre casais: às vezes, não é preciso dizer nada, só se olhar.
Assim também com Jesus. Ele olha para nós e, através desse olhar, outras pessoas podem descobrir quem Ele é. Jesus não aparece visivelmente a todos, mas se torna presente através de nós. Somos como Maria, que estava ao lado d’Ele na cruz, recolhendo os frutos da Redenção.
Quando as pessoas olharem para você, deveriam perceber Jesus. Esse é o nosso testemunho: Ele é o profeta, o Ungido, o único. Que, ao olhar para o olhar de Jesus, possamos entender quem Ele é — e também quem nós somos.
Que a Mãe de Jesus nos ajude a sempre nos aproximarmos d’Ele, e a sempre nos confrontarmos com essa pergunta essencial, especialmente nos momentos difíceis e decisivos da vida:
Quem é Jesus para mim hoje?
Jesus nos olhará com amor, e nesse olhar encontraremos a resposta que buscamos.
Que sejamos testemunhas alegres e cheios de esperança.
Amém.”
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Texto retirado da homilia do dia por Sueli Vilarinho

